Inconformada com a decisão do Supremo sobre aborto de fetos anencéfalos, a bancada religiosa do Congresso Nacional apresentou uma proposta de emenda à constituição (aqui) que cria mecanismos para que o legislativo possa sustar decisões judiciais. A proposta, segundo os autores, visa combater o ativismo judicial em prol da separação entre os três poderes. Afinal, uma bancada religiosa podendo decidir como a mais alta corte do país deve julgar é exatamente o que eu chamaria de exemplo de separação de poderes.
Seguindo a linha piada pronta, o DEM propôs ADIN contra o sistema de quotas raciais, afirmando que esse mecanismo é racista, e eles, paladinos da igualdade, não podem deixar que alunos negros se matriculem na universidade por intermédio das quotas, pelo próprio bem deles. Demóstenes Torres, bastião da linha altruística “te fodo para o seu próprio bem”, sustentando a procedência da ação em plenário composto por apenas um ministro negro – também chamado de moreno escuro (aqui) – afirmou que no Brasil não existe racismo e para provar isso disse que a culpa da escravidão é dos própros negros, afinal quem vendia escravo era africano (aqui).
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Dizem por aí que o sistema de cotas é racista. Vamos supor que seja. Negros são mais revistados pela policia em uma semana do que o Demóstenes na vida inteira (aqui), são acusados de tentar roubar o próprio carro no Carrefour (aqui), são confundidos com bandidos e submetidos a tortura (aqui), são chamados de “macacos” por comediantes e criticados por não rirem da piada (aqui), ou seja, passaram por uma série de abusos e situações constrangedoras que alguém, por ser branco, jamais passaria, ainda que pobre, mas entrar na universidade com ajuda do sistema de cotas ahhh, aí não dá! É humilhação demais. Vamos nos manifestar pelo bem deles!
Se houvesse um número maior de negros ocupando cargos de nível superior, muito provavelmente aquele rapaz não teria sido acusado de tentar furtar o próprio carro. Se ao menos a metade dos juízes, promotores e advogados fosse composta de negros, algo me diz que pessoas negras não seriam confundidas com bandidos com tanta frequência. Ou seja, o sistema de cotas não só não é racista, como serve justamente para tentar mitigar parte do absurdo que é viver numa sociedade veladamente dividida em castas.
Dizem por aí que o sistema de cotas é medida paliativa, populista, “tapa buraco” e outros adjetivos, de forma que a verdadeira solução seria investir em educação básica. Honestamente, se a educação base fosse boa, nós não estaríamos tendo essa conversa, saca? Salvo os assumidamente racistas, ninguém estaria se insurgindo contra as cotas, e nesse momento eu estaria tomando uma cerveja ou planejando um golpe de estado. Portanto, eu sou a primeira pessoa a vender a alma para que invistam em educação básica. Enquanto isso, os negros esperam sentados, no banco da universidade, pode ser? Há uma razão de ser óbvia na existência de medidas em curto e em longo prazo. E as pessoas precisam entender que uma não exclui a outra. E só uma dica: eleger um síndico em vez de um prefeito não ajuda.
A resistência às cotas é, no geral, originada pelo medo de “perder” a vaga para alguém que entrou pela cota. Você tira uma nota alta, mas quem foi aprovado pela quota tirou nota menor. É injusto, né? Não, não é injusto. Injusto é competir com alguém em clara disparidade de armas e ainda dizer que é “meritocracia”. Tem que ser cara de pau para ganhar uma corrida tendo largado com no mínimo cem anos de vantagem e dizer que é “mérito”. E sejamos francos: quando educação é apenas mais outra mercadoria, esse papo de meritocracia no mais das vezes se resume a ter tido a oportunidade de estudar em bons colégios (caros) ou ter grana para gastar com cursinho. Por isso essa conversa de meritocracia sempre me pareceu papo de Karetê-Kid. Não, você não pode ser o que quiser. Você faz o melhor dentre as opções que tem. No caso dos negros, eles ouvem para ser duas vezes melhor. Se nasceu pobre, três. Injustiça é, portanto, o sentimento que a pessoa que conquistou a vaga teve que engolir desde que nasceu.
Ninguém reclama do sistema de cotas para deficientes (eu espero…). Ações afirmativas só existem porque infelizmente há iniquidades fáticas. Ironicamente, a norma constitucional que dispõe que “todos são iguais perante a lei” representa justamente uma vitória história das mulheres e dos negros, que antes não podiam sequer reclamar das injustiças já que a desigualdade era chancelada pela lei. Numa situação hipotética, se juquinha, adolescente subnutrido, e joãozinho, bem nutrido, pedem um pedaço de pão ao governo, é justo responder: bom, como todos são iguais perante a lei, então cada um vai receber meio pãozinho? Sério, amigão, você está fazendo isso muito errado. Se tudo o que você sabe repetir é que “todos são iguais perante a lei”, vai lá, declara imposto de renda com a base de cálculo do Eike Batista então, mané. Nessa hora todo mundo lembra que justiça não é tratar igualmente os desiguais.
É claro que quem conquistará a vaga não será o aluno negro “preguiçoso”. É até ridículo explicar isso. Quem consegue bolsa socio-econômica é o Shelton da escola pública, que chuta bundas dos outros alunos não-bolsistas (aqui e aqui), e, ao contrário dos seus colegas de universidade, não pode “pegar DP” senão perde a bolsa. Da mesma forma, quem conseguirá vaga por meio de cota racial será aquele aluno que, a despeito dos esforços, bateu com a cara na porta da neo-senzala em algum momento. Não fosse o racismo velado ou explícito, bastaria a bolsa socio-econômica. Então em vez de encher o saco contra as cotas, converta um racista.
O sistema de cotas não vai fomentar rivalidades entre brancos e negros e criar segregações. Se as pessoas saírem por aí falando que não seriam atendidas por um “médico cotista”, ou que aquele aluno negro ali no canto da sala “deve ter entrado pela cota mimimi”, isso se deve ao fato delas serem imbecis e preconceituosas, e não tem como deixar de implementar uma ação importantíssima por causa dos anencéfalos não abortáveis. Desculpa. Além disso, apenas 2% dos universitários são negros, então, sério, você está preocupado com a segregação meio tarde. (Dica: se você não percebeu isso é porque está no time que está ganhando).
O sistema de cotas também não vai acabar com o racismo. Mas a ação versava sobre a constitucionalidade das quotas raciais e não sobre “como extirpar imbecis do universo em 5 passos”.
Dizem por aí que o seu umbigo é o melhor paradigma argumentativo (meu bisavô é negro e venceu na vida sem cota, o fulano é negro e bibibi) mas isso é definitivamente mentira:
Matéria do Conexão Reporter:
