A grande maioria dos paulistas adora fugir para a praia. Muito embora tenha por hábito proferir excrescências bairristas, é no nordeste que a classe média passa suas férias. Vocês já foram à Bahia? Eu digo, já foram a trabalho para a Bahia? Eu, recentemente, tive notícia de uma precatória que levou 1 ano para ser cumprida por lá. Um paulista se mataria antes disso. Quiçá com razão.
Mas agora vamos supor que você está de férias fora do estado de São Paulo e resolve ir ao mercado num domingo. Você não tem pressa, não está fazendo nada de útil. É domingo. Você vai lá, faz sua compra normalmente e leva até o caixa. Aí, o atendente do caixa pega um produto, encosta no leitor, espera um pouquinho, sacode o leitor, encosta novamente e coloca o produto no balcão, e assim sucessivamente. Depois, muito calmamente ele pega uma sacolinha, olha pra sacolinha, respira, dorme um pouquinho, pega um produto, coloca na sacolinha, daí pega outro, e outro, e outro… Você está espumando. Seu instinto paulista apita e você quer enfiar todos os produtos – e a cabeça dele – dentro da mesma sacola e dar o fora dali o mais rápido possível. Você não aguenta esperar 15 minutos para terminar as compras, mas vive numa cidade em que se perde 2 horas por dia, no mínimo, no trânsito.
Aqui em São Paulo você já acorda puto com o despertador. Ele, de alguma forma, sempre indica que você está atrasado. Mas isso não basta. Não basta estar efetivamente atrasado. Isso não nos satisfaz. Então nós adiantamos os relógios e ficamos virtualmente atrasados a fim de evitar um efetivo atraso. Coisa de louco.
Você acorda – estressado – levanta da cama, corre para a cozinha, tropeça no gato, ou, na falta dele, em si mesmo, liga a cafeteira e arruma a mesa para o café da manhã. Deixa a cafeteira ligada e vai tomar banho. No banho, escova os dentes. Sai do banho, senta-se à mesa, ainda com a toalha na cabeça. Toma café enquanto faz chapinha no cabelo. Aí você sai na rua. Pega o carro e fica duas horas com o ar condicionado ligado, tocando a nona de Beethoven na buzina, numa velocidade de 30 cigarros por minuto.
Se não possuir carro, daí é uma crônica à parte. O metrô de São Paulo possui função socio-afetiva. Está se sentindo sozinho? Vai fazer baldeação na Sé. Dos mais feios aos mais tímidos, todos serão agraciados com uma baforada úmida no cangote. E você sequer precisa fazer esforço para se segurar. Nem para sair. Você é compelido, ou expelido, a fazê-lo.
Hoje, domingo, presenciei um fato assaz curioso no metrô paulista. Uma mãe, acompanhada de sua provável filha, segurava a criança firmemente pelo ombro, como se ela fosse escapulir a qualquer momento. Cheguei primeiro à plataforma, mas já previ uma ultrapassada selvagem pela direita.
Quando o trêm chegou, mal as portas se abriram e eu ouvi: “Vai! Corre e pega um lugar pra você!” E então a mulher empurrou a criança para frente, como se fosse um daqueles galos de briga, para que a garota avançasse desesperadamente sobre um dos bancos. A criaturinha correu, balançando os bracinhos e os cabelos, seguindo o exemplo da mãe que se mostrava apavorada frente à possibilidade atroz de ter de seguir viagem em pé.
Ocorre que o vagão estava vazio. Ainda que aquela mulher fosse muito espaçosa, poderia sentar-se em três bancos que ainda sobraria um lugar para mim e outro para a sua filha. Falta de educação à parte, o que sempre me chama atenção nessas horas é que o ato animalesco é sempre seguido por risadas feias. Novamente a função socio-afetiva do metrô. Aqui você pode brincar de dança da cadeira, só que a música são os urros daqueles que parecem já terem perdido parte da humanidade, a troco de um banco.
Na selva de pedra não mais se mede, sequer, a utilidade da bárbarie dos atos cotidianos. Você está tão acostumado a querer chegar primeiro que até se esquece que é domingo. Daí você quer ser o primeiro a descer do ônibus até quando vai à padaria. Já se tornou afoito demais para se dar conta que a pessoa que acabara de ultrapassar na escada rolante é o segurança do metrô. E ele não vai tomar o seu lugar. Nem se você for educado. Nem se você tiver calma. Nem se ele for paulista.