Caminhava com dificuldade ao pronto-socorro, ciente de que deveria fazer certo alarde para ser atendido ainda hoje e atestado somente o de óbito. Logo na entrada havia um jardim simpático e a julgar pela decoração das paredes aquele lugar deve ter sido, noutros tempos, uma escola para crianças. Era um lugar bonito, mas todas as pessoas ali eram feias.
A sala de espera já estava lotada. Retirou uma senha e procurou por algum funcionário. Estava sentindo muita dor e queria ser atendido o quanto antes, vulgo primeiro que os que jaziam na fila. Andou até um guichê desocupado e explicou seu caso, fazendo muita careta.
- Isso é um pronto-socorro. Todos os casos aqui são urgentes. Nós só damos senha especial para idosos e gestantes, senhor.
Sentou-se, contrariado, constatando que ele próprio era, afinal, apenas mais outro feio.
Depois de meia hora levantou-se para fumar. No banco externo, rodeado por um pequeno canteiro e paredes decoradas com florzinhas e borboletas coloridas, sentaram ao seu lado três mulheres com suas respectivas filhas. Conversavam exaltadamente, num tom de voz alto bem característico dos feios. Falavam sobre homens, mulheres, filhos; sempre sobre pessoas.
Carlos tentava não ser petulante, mais por vaidade do que por educação, já que a indiferença devia ajudar-lhe a parecer menos feio, mas era impossível não ouvi-las, sobretudo diante de tão interessante narrativa. Após justificar moralmente o ato de orelhar a conversa alheia, não tardou a começar a tecer juízos mentais sobre as histórias que ouvia.
Uma das garotas, que tinha equimoses, hematomas e edemas por toda face, praticamente o gabarito da sua última prova de medicina legal, vangloriava-se de ter finalmente enfiado a cabeça do marido bêbado no forno, no que foi seguida pelo apoio irrestrito das ouvintes. A mais nova delas, que não devia ter mais de 16 anos, estava novamente grávida e contava às outras suas peripécias amorosas e tragédias domésticas.
Apesar de ter achado de extrema ignorância algumas das premissas, Carlos ponderou que talvez mudanças drásticas na moral da sociedade só poderiam vir mesmo do reduto dos feios – ainda que mais como subterfúgios de sobrevivência do que como atos contestatórios deliberados. Deliberadamente ou não, a feia mandou melhor que a Madonna no episódio cabeça no forno.
Cansando de ouvir, voltou à sala de espera. Depois de 1h30min sua senha finalmente aparece no painel eletrônico. Preencheu afoito um longo formulário no balcão e em contrapartida recebeu uma nova senha. Agora o seu novo número apareceria noutro painel. Num amarelo. Era uma senha protelatória.
Depois de algumas horas, novas senhas e vários balcões, Carlos confabulava com si mesmo quantas casas ainda teria andar antes de chegar ao final, quando foi surpreendido por alguns enfermeiros transportando pessoas de um lado a outro por meio de tábuas de madeira sem qualquer tipo de forro ou proteção que separasse a madeira da pele. Eram simplesmente pedaços de madeira com pessoas em cima.
Alguém chamava seu nome. Voltou a si. Estava finalmente frente a frente com uma médica. Contou-lhe o que havia acontecido, ressalvados os detalhes sórdidos, respondeu a uma série de perguntas relacionadas à sua saúde e aos seus hábitos.
- Assine aqui.
- … já acabou?
- Aqui já. Agora você vai esperar na próxima sala para tomar a medicação.
- Mas vocês não vão tirar raio-x, sei lá, alguma coisa?
- Você deve ligar nesse número aqui se quiser agendar uma consulta com um ortopedista. Aqui nós só temos clínico geral. Você receberá algo para a dor e deverá retornar sem falta a um ortopedista…
- Mas eu peguei senha para passar no ortopedista.
- Nós não temos ortopedista – disse calmamente a médica, enquanto sorria de forma didaticamente irritante, como se falasse com uma criança de cinco anos.
- Bom, mas não tem como pelo menos me dar uma tipóia?
- Sim, claro! – sorriso didático – Mas eu preciso que você assine aqui “para mim pedir” (sic) para o médico.
- Você não é médica?
- Claro que sou. Mas não tem tipóia aqui! – agora a médica mostrava um sorriso piedoso, como se sentisse dó do paciente que de tão acéfalo desconhecia a localização das tipóias naquele Hospital.
Enquanto a médica falava, Carlos revisava mentalmente todas as formas de matar alguém utilizando uma tipóia, tendo elencado as três mais criativas. Limitou-se, todavia, por rara manifestação de juízo, a lançar um olhar pouco simpático para a médica, enquanto assinava uma folha amarela e recebia um pequeno ticket como comprovante.
- Saia da sala e vire à direita. Vão te chamar pelo nome.
Seguindo as orientações, atravessou um pequeno corredor e encontrou, ao final, uma sala com uma fileira de cinco bancos a sua frente. Sentou-se ao lado dos outros fudidos. Enquanto se acomodava, viu um homem que parecia uma múmia deixar a sala. Quinze minutos depois, um médico apareceu chamando seu nome.
Não havia cadeiras naquela pequena sala, mas apenas vários armários com remédios e aparatos médicos. O médico lhe deu algumas aspirinas enquanto dizia que o seu ombro deveria estar ”apenas luxado”, mas que, em todo caso, seria bom procurar um hospital, ainda hoje, para imobilizar a região.
- Aqui não é um Hospital?
- Pronto-socorro…
- Hm.. Você pode me dar um tipóia ou algo pra imobi..
- Daria, mas acabou. Estamos sem tipóia.
Carlos queria colocar na boca todas as aspirinas e cuspi-las, como sementes de melancia, diretamente sobre a fuça do médico, mas só agradeceu por porra nenhuma e perguntou sobre a saída mais próxima.
