Violência contra animais: a inocência e o direito à vida.

Violência contra animais: a inocência e o direito à vida.

Algumas pessoas exasperam o conceito de respeito à integridade física e à vida para abarcar também os animais. São pessoas que partem de toda uma sistemática principiológica humanitária, ainda que os favorecidos em questão não sejam seres humanos. Estas pessoas não acham legal matar animais, da mesma forma que não acham legal matar mendigos, índios, prostitutas, “bandidos” etc.

Outras pessoas, que eu chamo de defensores do Mickey Mouse, partem da premissa de que não se pode maltratar animais porque olha que coisa mais fofa. Daí porque defensores do Mickey Mouse. O último rato famoso que eu tive notícia morreu pisoteado no Shopping Iguatemi. Quem mandou ser feio.

Todavia, o que me preocupa é o terceiro grupo: as pessoas que se indignam com a violência contra animais porque eles são bichinhos inocentes, indefesos; não fizeram mal para ninguém. Da mesma forma que acham um absurdo violência contra crianças porque, afinal, é errado fazer mal a uma crituarinha inocente. As mesmas pessoas, em regra, também acham que abortar é errado porque ceifa uma vida inocente. E se fosse possível voltar no tempo e o bebê fosse Hitler? E se o animal fosse um pitbull virado no capeta? E se a criança fosse negra, pobre e estivesse furtando a sua carteira? Se a inocência vai pra casa do caralho, a vida vai pro saco? A premissa aqui não é humanitária, mas cristã.

A minha encrenca é com essa premissa. Com a defensora dos poodles fã do Datena. Com o maniqueísmo como critério de proteção à vida. Há inclusive uma imagem circulando no Facebook comparando um cachorrinho a uma criança para concluir que ambos merecem respeito. Eu teria muito mais respeito pelo criador da imagem se ele colocasse um mendigo ao lado de um cachorro e sustentasse o mesmo. Um canil ensanguentado não pode gerar mais revolta do que Guantánamo. Não porque animais valem menos do que humanos, mas porque uma vida não pode ter menos valor porque deu errado.

A premissa faz toda diferença.

Os zumbis que não estão na Cracolândia

Os zumbis que não estão na Cracolândia

A expansão da internet, por disponibilizar novos mecanismos de acesso à informação, deveria levar à circulação de idéias mais bem construídas e fundamentadas. Na prática, a conversa da vizinha veio parar na sua tela e todo mundo adora a Clarice Lispector. Antes, bastava sabotar todas as festas universitárias, os botecos que transmitem futebol, os homens machistas, as mulheres que chamam umas as outras de “ai, amiga!”, ou seja, ambientes que devem ter uma espécie de feromônio da imbecilidade que o papo furado mantinha distância.

Também era possível ter mais amigos. Hoje, aquela pessoa que era seu companheiro de video-game, e divertidíssimo para essa finalidade, está agora na sua timeline curtindo horrores os comentários do Tico Santa Cruz sobre política. A turma que você adorava ir viajar, acampar, fazer trilha, agora compartilha informações equivocadíssimas sobre o Auxílio-Reclusão e se acha politizado – até foi no Cansei da OAB-SP. Os velhos companheiros de cachaça são os únicos que não revelam nenhuma surpresa, o que não é necessariamente bom.

Até a vida sexual-afetiva foi comprometida. Você não espera que aquele gracinha da academia conheça Fernando Pessoa, mas te chamar para sair em comic sans ainda  é um golpe inesperado. Uma amiga minha já foi convidada para tomar uma “coca laite”.  Até esqueci o que ia escrever. Lembrei. Ia dizer que na época do Orkut era comum stalkear o perfil dos bofes interessantes em busca de comunidades comprometedoras, afinal ninguém fala: “Oi gato, sou a rainha da laje”. Espero. Hoje você não precisa ter o trabalho de procurar por coisas comprometedoras, já que estamos falando de redes sociais em que as pessoas expressam o que pensam. É a desilusão ortográfico-amorosa adornando discursos de ódio. Mais um dia sem trepar na escada.

Num lugar em que todo mundo quer ter opinião sobre tudo, você respira fundo a cada tweet, torcendo para que amigos de infância não comentem o câncer do Lula. O sentimento é igual ao clássico momento de filme de terror zumbi:  você está cercado e tem consigo uma arma com poucas balas. Matar o maior número de zumbis possíveis antes de ser pega ou atirar na própria cabeça?

Bandidos são os outros

Bandidos são os outros

Álvaro de Campos nunca conheceu quem tivesse levado porrada. Eu nunca conheci quem fosse bandido.  Luciana Penteado, mãe da estudante de Direito Mayara Petruso, queixou-se recentemente: “Nossos dados pessoais e endereço foram expostos na internet como se fossemos criminosos(aqui). De fato, Mayara incorreu em alguns tipos penais quando publicou seu comentário cheiroso contra nordestinos. Quem comete crime é criminoso, certo? Não na prática.

“Tirem o meu filho da cadeia, ele não é bandido”.  Dizem as mães. Até aqui, poderia parecer apenas mais uma mãe coruja. Mas vai além. “Ele vai ficar naquele lugar horrível, cheio de bandido?”. O que não sabem essas mães é que esse lugar horrível, “cheio de bandido”, está repleto de gente que, tal qual o filho delas, furtou uma penca de bananas.

A mãe da Mayara e os demais parentes de “criminosos” não os vêem como tais, apesar de saberem que eles praticaram um crime, porque no imaginário popular “criminoso” é algo muito além do “incorrer em tipos penais”. Claro que a Sra. Luciana pode ter dito isso por acreditar que ofender nordestinos não é crime. Mas, na esmagadora maioria das vezes, a negação se dá por conta da construção quase mística da figura do “bandido”.

Bandido: aquele sujeito feio, armado, que estupra e esquarteja na calada da noite. Recentemente, no auge do conflito no Rio de Janeiro, o chefe da Polícia Civil de lá disse que  “sabe diferenciar bandido de morador.”  O homem que foi morto pelo BOPE porque estava com uma furadeira na mão que o diga.  Metodologia Lombrosiana arrasando no século XXI. Lombroso for dummies: se o sujeito está andando com uma AK-47  no meio da Praça da Sé, pelado, fumando haxixe, cantando “pau no cu da Polícia”, ele deve ser mau. Mas voltemos à realidade.

É mais fácil imaginar o bozo saindo de uma moita com uma peixeira na mão gritando “vem cá minha nega” do que um cidadão de bem descobrir qual a espécie de delito mais recorrente entre os sentenciados. Dos crimes contra o patrimônio, o número de roubos majorados pelo uso de arma de fogo é muito menor do que os praticados sem o uso de excessiva violência. Para quem não faz Direito, ameaçar verbalmente a vítima ou empurrá-la para subtrair o objeto também são condutas enquadradas como roubo. E essas duas últimas formas são as mais corriqueiras. Aos poucos você percebe que há mais bandido na manchete do jornal do que na cadeia. É um maníaco do parque para cem ladrões de galinha. Vamos supor que você deu um pontapé na vítima, pegou a bolsa dela e saiu correndo.  A defesa chama isso de “furto por arrebatamento”. O Parquet diz que você tem a “personalidade voltada para o crime” e traça toda uma análise psicológica xexelenta sobre o seu caráter sem nunca ter te visto na vida. Tá sem grana pro psicólogo? Chama o MP. Adivinha qual tese ganha? São quatro anos de pena se for primário. A lei sugere regime inicial semi-aberto, mas os semi-deuses não costumam curtir muito a sugestão.

Fazer download gratuito de filme é crime. Pornografia é crime. Vadiagem é contravenção penal. Vou pra Holanda. O Código Penal tem, numa contagem porca, uns 238 crimes. Todavia, a alcunha de “bandido” parece ser reservada somente àqueles crimes praticados por pobres. Roubar bolsas, coisa de bandido. Apropriação indébita, até o nome é chique.

Além disso, vem a questão emocional/antropológica: quando é conosco, ou com alguém para com quem nutrimos afeto, o crime é um ato de fraqueza. Nós queremos saber do contexto, ponderamos a vida que a pessoa levava,  as razões pelas quais ela cometeu o delito. “Por que o fulaninho foi fazer isso?”. Lembramos-nos da falibilidade humana. Podemos até  querer que a pessoa pague pelo que fez, mas então a gente se recorda dos direitos humanos, das garantias processuais, da proporcionalidade da pena… Cadê o “bandido bom é bandido morto”? Bandidos são os outros!

Eu não acho errado proteger parentes. Eu defendo pessoas que  nunca saberei quem são.  Acho errado chamar alguém de bandido e ter a amplitude de visão de uma toupeira. Mas a minha opinião não vincula ninguém além de mim. O ponto é que todo discurso – até os mais cretinos – devem ter coerência: ou ninguém que pratica crime é bandido ou todos são.

Efeito Cinderela

Efeito Cinderela

Mulher varejeira

Gata borralheira.

Puta, preta, pobre

Cinderela não teve sorte

 

Fada madrinha

Aliciou a menina

Jóias, roupas, carro

Cinderela é um arraso

 

Príncipes vários

Um bando de otários.

Bêbados, ratos

Cafajestes natos

 

A madrasta se enrubesce,

frente a tanta humilhação.

Mas o trabalho enobrece,

Qual o problema, coração?

 

Mas ao descer do palco

ao levantar da cama

ou ao bater cartão

Cinderela torna-se feia

longe do seu ganha pão.

A isonomia do preconceito

A isonomia do preconceito

É assaz curioso que o princípio da isonomia seja evocado, na maioria das vezes, justamente no afã de defender o direito dos segregalistas.  Exemplo? Quando se fala em medidas afirmativas, usa-se como sustentáculo jurídico os direitos humanos. Aplica-se o princípio da equidade, construindo meios artificiais para dar igualdade fática àqueles que tomam olé da teoria. É como dar um salto alto para uma pessoa que mede 1,50 para que ela consiga alcançar o freezer. Daí, surpreendemente, surgem algumas pessoas que medem 1,80 dizendo: “Ah, mas e o princípio da isonomia? Por que elas têm direito a uma ajudinha para alcançar o freezer e eu não tenho?” Você já alcança o freezer sozinho, minha anta. Feriria a isonomia dar um salto alto de 2 metros de altura para um anão. A lei Maria da Penha fere a isonomia? Feriria, se dessem um fuzil para cada mulher agredida e carta branca para atirar. Basta substituir “pessoas de 1,80″ por indivíduos que ocupam lugares privilegiados na escala social, “pessoas de 1,50″ por aquelas vítimas de séculos de discriminação, e “freezer” por dignidade. A partir daí, só com muita burrice ou má-fé intelectual para achar que igualar os desiguais fere a isonomia.

Os contra-argumentos são semelhantes. Vira e mexe aparece um homem branco, rico, de olhos claros, católico, hetero, bradando contra o mundo porque se sente injustiçado frente à execução de alguma medida afirmativa ou à criminalização de alguma conduta – pois além de “não alcançar o freezer”, você é xingado, espancado e morto por conta da sua inferioridade. “Ah, mas e se o marido for espancado pela esposa”? Ok, supondo que você seja casado com a Chun li e tenha apanhado feio da esposa na frente dos próprios filhos,  pics or it didn’t happen. Após, mostre-me um levantamento com mais casos. Depois, prove-me que a patroa te bateu não por alguma questão de caráter pessoal, mas  sim porque de alguma forma ela vê  seu gênero como de menos valia.  O Segundo Sexo, escrito por Sartre. Demonstre que os maridos foram e ainda são vistos como “posse” das respectivas esposas e que  a elas deviam obediência durante séculos. Homem, o longa manus da esposa na busca pela felicidade. Por fim, aponte algumas religiões nas quais o marido possui o dever moral de ser submisso à esposa. Em suma, ache a Terra do Nunca.

Aliás,  fico estarrecida com a preguiça intelectual – quiçá causado pelos altos índices de preconceito no sangue – das pessoas que afirmam que o PLC 122/06 irá transformar os homossexuais em “super cidadãos”. Pior do que isso, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) apresentou um projeto de lei para criminalizar – chorem – a heterofobia. É como criminalizar quem tem ojeriza ao Brad Pitt. “Ah,  mas a prima da minha cunhada odeia o Brad Pitt!”. Tadinho do Brad Pitt! Só porque a prima da sua cunhada odeia o gajo é absolutamente necessário fazer um projeto de lei para protegê-lo. Mas voltemos ao Cunha. Ele afirma que o objetivo do projeto é fazer com que “os normais (SIC) sejam respeitados”. O fundamento? O deputado entende que os heterossexuais sofrem constrangimento quando frequentam lugares voltados ao público gay. “Ele é discriminado. Não tem jeito.”  Seguindo este raciocínio, deveríamos propor  um projeto de lei em prol dos pagodeiros que se sentem constrangidos num show de rock.  Todos sabem que milhares de pagodeiros e heterossexuais são expulsos de suas casas por conta da sua orientação.  Na adolescência, o filho vira para a mãe diz:  mamãe, sou hetero.  Daí a família inteira entra em choque. Mas a questão não é nem essa. O ponto é que o PLC 122/06 corta para os dois lados, com o perdão do trocadilho.

Art. 1º Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.

Alguém leu homossexual aí em cima? É absolutamente deprimente propor um novo projeto de lei para proteger os heterossexuais, pois, primeiro, o PLC 122/06 já faz isso; segundo, o Estado não precisa criar mecanismos jurídicos para proteger a moral dominante – a sociedade faz isso sozinha; terceiro, novamente faz-se alusão à violação do princípio da isonomia – “transformar gays em super-cidadãos” – para defender  justamente o interesse  daqueles setores da sociedade que  desejam perpetuar a segregação (“fazer com que os normais sejam respeitados”).

De qualquer sorte, se o PLC 122/06 for aprovado e algum macho alfa vier a se sentir discriminado por uma bichona maligna, basta procurar seus direitos. Espero para ler, sentada, os processos.

 

Foto: Ato contra o Manifesto do Chanceler do Mackenzie

Silêncio, já vai começar…

Silêncio, já vai começar…

Final do ano, sala de aula, vista de prova. Uma professora havia reprovado 80% dos alunos da classe. Sem massagem. Destes, 70% estavam desesperados pedindo nota; 5% já havia ido viajar. Quanto a mim, bom, eu estava parada frente à porta, me perguntado porque raios aquelas garotas da frente não paravam de chorar. Confesso que senti prazer com isso. A mais afoita já havia dado adeus à dignidade e estava sentada no degrau da sala, ficando aos pés da mesa da professora. Eu? Fiquei parada como uma idiota, procurando pelos 5% restantes.

Tal como eu, a professora facínora parecia estar pouco se fodendo para com as meninas que tanto choravam. Entretanto, ela não aparentava estar sentindo prazer com isso. Não. Ela faz parte daquelas pessoas que te fodem por ofício. Um pau na bunda funcional. “É o meu dever, senhor. Estou aqui para fodê-lo”. Resolvi sair da frente da porta. A sala estava terrivelmente clara. Estávamos com falta de figurantes.

Devidamente acomodados em nossos respectivos lugares, era hora do show. Mais barato do que ir ao cinema. Mais rápido do que ler um livro. Sempre era engraçado freqüentar vistas de provas.

Alguns argumentos eram tão cretinos que seria melhor usar aquele do “eu poderia estar matando, poderia estar roubando…” Falando em matar, não raro foram os casos de alunos que “mataram” a mãe, o pai, a avó, metade da família, tudo para justificar o pífio desempenho na prova.

Oh, Deus. Metade da cidade foi varrida do mapa. Onde eu estava?! Perdi o genocídio! Lamentável… Pequenos burgueses odeiam atrasos! Vendo por esse lado, bem que eu suspeitava que houvesse alguma razão plausível para tios e primos existirem em grande quantidade. Em todo caso, na falta de parentes tem sempre aquela do cachorro.

- Professora! A senhora acredita que o meu gato/cachorro/cavalo/iguana comeu meu Código JUSTO nesse artigo?!

Isso me lembrou duma vez em que, no primeiro semestre, eu, toda feliz, pela primeira vez levei para casa um livro da Biblioteca da faculdade. Peguei um Código Civil para fazer um trabalho. Em casa, depois de certo tempo, comecei a suspeitar que havia algo podre no reino da Dinamarca. Nenhum dos artigos que eu procurava batiam com o que o professor havia explicado em aula. Ué. Será que este código está desatualizado? Chequei a data: Código Civil de 1916.

O mais incrível é que não estou sozinha. Por isso adoro seres humanos:  em termos de burrice, é difícil ser imbatível. Um professor amigo meu contou-me que, durante uma prova, reparou que uma aluna revirava aflita o Código Civil, parecendo não encontrar nenhum dos artigos que procurava. Eis então que ele reparou na capa. Era um Código Civil de Portugal.

Voltemos à vista de prova. Ah! Tudo na vida é uma questão de hermenêutica, não é mesmo?

“Ora! Cadê a correção teleológica da prova? A finalidade do curso não é formar pessoas? Então! Fica difícil com a senhora me reprovando…”

“Professora, veja bem…”

“Veja bem” é uma espécie de prenúncio de falácia. Raramente é dito algo de verossímil após essa expressão. “Veja bem” quer dizer: estou errado, mas irei tentar convencê-lo do oposto.

Mas nem todos são servos. Há quem opte pelo embate direto. Um espartano sentado no fundo da classe levantou a voz, destoando do restante dos simpáticos suplicantes, e fez uma pergunta que não constava na lista pré-selecionada da professora – peticionada em duas vias, autenticada em cartório, autorizada via despacho judicial – e, portanto, não figurava na lista das possíveis respostas previamente imaginadas pela professora. Não estava em pauta, ela ficou puta.

Como resposta, apenas um pouco da usual demonstração de como a destreza da arrogância hierárquica pode ser usada para disfarçar o vazio intelectual.

Comecei a olhar para a minha turma, procurando por alguém com mais ou menos a mesma expressão que a minha. Já estava me preparando para levantar, quando ouvi dois garotos conversando:

- E você, o que acha do Gilmar Mendes?

- Não gosto dele. Gordo e careca. Me lembra demais a mim mesmo…

Como se tornar um idiota

Como se tornar um idiota

No primeiro semestre tive que encaminhar um e-mail aos meus colegas de classe para conversar sobre um trabalho. Inocentemente escrevi algo do tipo: “E aí, galera? Tudo bom com vocês?! Então, como é que nós iremos dividir o tema? Bjos!! Nanda”. Recebi como resposta:

“Prezados Colegas, bom dia. Sirvo-me do presente para tratar acerca do conspícuo tema que teremos o júbilo de abordar em sala (…). Cordialmente, Fulano da Silva Sauro.”

E aí? Bom, aí eu me senti uma idiota! Puta merda, aonde que eu fui me meter? Estou fazendo a faculdade errada! Fiquei imaginando esse sujeito na feira: “Pela ordem! Pela ordem!”. Eu pechincho na feira.  De dar vergonha. Esse cara vai dar carteirada para comprar chuchu. É o tipo de gente que se rejubila ao ouvir o moço do churros se dirigindo a ele como “Doutor Fulano”. Daí o babaca diz com um sorriso amarelo, só para parecer moderno: “Não, não. “Pode” me chamar “só” de Fulano”. Afinal, é um puta favor poder se referir a alguém que não é médico nem tem doutorado por “você”.

Mas voltemos ao idiota. Será que daqui a cinco anos esse  meu colega vai conseguir ir à padaria e comprar tudo o que deseja em cinco minutos? Ou será que ele vai discutir com o padeiro porque o tamanho do pãozinho fere a dignidade da pessoa humana? De certo irá rasgar seu latim para pedir mortadela.

A propósito, no primeiro semestre a maioria dos meus colegas usava jargões jurídicos – cretinos – em latim, no nick do msn. “Mamãe, mamãe, aprendi uma palavra nova! Nova não, velha. Muito velha! Assim que é bom! Se é arcaico deve ser importante.” As pessoas mal começam a fazer Direito e já querem processar todo mundo. Ano passado uma garota deu um tapa no rosto de um garoto impertinente, daí a sala queria levá-los à delegacia para registrar a “ocorrência”. Na minha terra, apanhar de mulher é no máximo motivo de piada.

Não sei como as pessoas nos aguentam. Na última vez em que eu discuti com um advogado pensei seriamente em encaminhar um projeto de lei para acrescentar uma qualificadora no crime de auxilio ao suicídio.

Quando aquele estagiário se matou no Fórum Trabalhista todo mundo falava:  ”Ah, tadinho! O pobrezinho se jogou de lá de cima… Que horrível! “ Eu pensei: Horrível nada! Depois do que ele deve ter ouvido no escritório, pular lá de cima deve ter sido um passeio no Hopi Hari.

Muitos advogados reclamam o direito de serem presos numa sala de estado maior. Sim, nós temos a prerrogativa constitucional de sermos presos num lugar em que não poderemos encher o saco de mais ninguém. Afinal,  mandar um advogado para uma cela comum seria bis in idem.

Certa ocasião eu estava sendo entrevistada por dois advogados quando um deles, quem comandava a entrevista, terminou suas perguntas e se dirigiu ao outro:

- Você não vai fazer aquela sua pergunta?

- Qual?

- Aquela sua favorita! Dos bichos…

- Ah, é! – olha para mim – Se você fosse um bicho, qual você seria?

Os prezados doutores também adoram nos perguntar “Como é que você se imagina daqui a cinco anos”. Jura que preciso?

Síndrome de Paulista

Síndrome de Paulista

A grande maioria dos paulistas adora fugir para a praia. Muito embora tenha por hábito proferir excrescências bairristas, é no nordeste que a classe média passa suas férias. Vocês já foram à Bahia? Eu digo, já foram a trabalho para a Bahia? Eu, recentemente, tive notícia de uma precatória que levou 1 ano para ser cumprida por lá. Um paulista se mataria antes disso. Quiçá com razão.

Mas agora vamos supor que você está de férias fora do estado de São Paulo e resolve ir ao mercado num domingo. Você não tem pressa, não está fazendo nada de útil. É domingo. Você vai lá, faz sua compra normalmente e leva até o caixa. Aí, o atendente do caixa pega um produto, encosta no leitor, espera um pouquinho, sacode o leitor, encosta novamente e coloca o produto no balcão, e assim sucessivamente. Depois, muito calmamente ele pega uma sacolinha, olha pra sacolinha, respira, dorme um pouquinho, pega um produto, coloca na sacolinha, daí pega outro, e outro, e outro… Você está espumando.  Seu instinto paulista apita e você quer enfiar todos os produtos – e a cabeça dele – dentro da mesma sacola e dar o fora dali o mais rápido possível. Você não aguenta esperar 15 minutos para terminar as compras, mas vive numa cidade em que se perde 2 horas por dia, no mínimo, no trânsito.

Aqui em São Paulo você já acorda puto com o despertador. Ele, de alguma forma, sempre indica que você está atrasado. Mas isso não basta. Não basta estar efetivamente atrasado. Isso não nos satisfaz. Então nós adiantamos os relógios e ficamos virtualmente atrasados a fim de evitar um efetivo atraso. Coisa de louco.

Você acorda – estressado – levanta da cama, corre para a cozinha, tropeça no gato, ou, na falta dele, em si mesmo, liga a cafeteira e arruma a mesa para o café da manhã. Deixa a cafeteira ligada e vai tomar banho. No banho, escova os dentes. Sai do banho, senta-se à mesa, ainda com a toalha na cabeça. Toma café enquanto faz chapinha no cabelo. Aí você sai na rua. Pega o carro e fica duas horas com o ar condicionado ligado, tocando a nona de Beethoven na buzina, numa velocidade de 30 cigarros por minuto.

Se não possuir carro, daí é uma crônica à parte. O metrô de São Paulo possui função socio-afetiva. Está se sentindo sozinho? Vai fazer baldeação na Sé. Dos mais feios aos mais tímidos, todos serão agraciados com uma baforada úmida no cangote. E você sequer precisa fazer esforço para se segurar. Nem para sair. Você é compelido, ou expelido, a fazê-lo.

Hoje, domingo, presenciei um fato assaz curioso no metrô paulista. Uma mãe, acompanhada de sua provável filha, segurava a criança firmemente pelo ombro, como se ela fosse escapulir a qualquer momento. Cheguei primeiro à plataforma, mas já previ uma ultrapassada selvagem pela direita.

Quando o trêm chegou, mal as portas se abriram e eu ouvi: “Vai! Corre e pega um lugar pra você!” E então a mulher empurrou a criança para frente, como se fosse um daqueles galos de briga, para que a garota avançasse desesperadamente sobre um dos bancos. A criaturinha correu, balançando os bracinhos e os cabelos, seguindo o exemplo da mãe que se mostrava apavorada frente à possibilidade atroz de ter de seguir viagem em pé.

Ocorre que o vagão estava vazio. Ainda que aquela mulher fosse muito espaçosa, poderia sentar-se em três bancos que ainda sobraria um lugar para mim e outro para a sua filha. Falta de educação à parte, o que sempre me chama atenção nessas horas é que o ato animalesco é sempre seguido por risadas feias. Novamente a função socio-afetiva do metrô. Aqui você pode brincar de dança da cadeira, só que a música são os urros daqueles que parecem já terem perdido parte da humanidade, a troco de um banco.

Na selva de pedra não mais se mede, sequer, a utilidade da bárbarie dos atos cotidianos. Você está tão acostumado a querer chegar primeiro que até se esquece que é domingo. Daí você quer ser o primeiro a descer do ônibus até quando vai à padaria. Já se tornou afoito demais para se dar conta que a pessoa que acabara de ultrapassar na escada rolante é o segurança do metrô. E ele não vai tomar o seu lugar. Nem se você for educado. Nem se você tiver calma. Nem se ele for paulista.

Coisa de Pobre e os Neo-Sultões

Coisa de Pobre e os Neo-Sultões

Há quem diga que no humor vale tudo. Que piada “politicamente correta” não tem graça. Do “politicamente incorreto” dão um salto para o “preconceituoso” e, pronto, podem rir sem culpa. Eu nunca vi um pacifista ter ataque de riso ao ver fotos de Guantánamo. Piada preconceituosa: risada na certa ou seu dinheiro de volta.

Mas falemos das pessoas muito principais. Pelas terras tupiniquins o preconceito contra os pobres é tão grande que foi criado o instituto das “coisas de pobre”, o que por um lado é ótimo porque me fornece assunto para dez anos de blog. Falar ou escrever em desacordo com a norma culta é absolutamente imperdoável. Se ousar errar em público será massacrado no Coliseu moderno, vulgo Internet, por ávidos admiradores de grandes obras da literatura moderna, como Crepúsculo e Harry Potter. Cometer erros gramaticais chulos é feio porque é coisa de pobre. “Inobstante” é neologismo; “Derrepente” é coisa de burro.

Há alguns anos encontrei um colega meu na rua. Na ocasião ele me disse que estava indo ao shopping para comprar um estrado, de forma que poderia improvisar uma cama. Daí ele pediu o número do meu celular para me ligar assim que saísse de lá. Só que eu não tinha celular. Aí ele me chamou de “ai sua pobre”. Claro, ele é praticamente um neo-sultão dormindo num estrado.

Certo dia, eu estava num carro com algumas colegas da faculdade, quando começa a tocar “Burguesinha”, do Seu Jorge. Em tom de brincadeira, disse: “Putz. Seria bom ter essa vida, hein?”. E a guria sentada no banco de trás responde: “Ai, eu tenho essa vida”. Jura que você malha o dia inteiro?

A única coisa de inestimável valor que os pobres não possuem é erudição. Mas não só eles. A classe média se esforça loucamente em “parecer ter”, tentando reproduzir o ethos da elite, esta que, muito supostamente, é detentora da “arte do saber”. Supostamente, pois, diante do cenário atual do culto à imagem e da obrigatoriedade de um bom marketing pessoal, pergunto-me se alguém realmente sabe de alguma coisa.

Sobre gatos e burocracia

Sobre gatos e burocracia

Neste início de ano,  um brinde ao silêncio.  Mamãe resolveu presentear-me com bons e sagrados dias longe de casa. A esmola é muita e, minha missão, módica. Recebi uma singela lista de orientações, além do costumeiro “favor não destruir a casa”, mas nada que desprendesse especial atenção ou furtasse-me valioso tempo.

Apenas uma regra devia ser cumprida religiosamente: a dos gatos. O que é um tremendo caralho quando são sete felpudos. Transcrevo:

“A Lua não pode entrar em casa à noite. A Mel não pode sair de casa à noite. A Jasmim deve ficar o tempo inteiro dentro de casa. A Brisa e a Sol podem ficar fora de casa à noite.  A Shiva não pode entrar no meu quarto. O gato cinza não pode entrar em casa.

Beijos,

Mamãe Saura.”

Mamãe deveria virar redatora daquelas revistinhas de lógica. Talvez fosse de bom tom apenas trocar o nome dos gatos por algo menos age of aquarius. Falando em nomes, fiquei ligeiramente tocada pelo fato do gato cinza não ter sido agraciado com um nome. Ou não.

Agora é pra valer. Mamãe bateu a porta, apertou os cintos e partiu. Tudo estará na mais perfeita tranqüilidade até o primeiro meow.

Antes de dar início à esbórnia, enxotei o gato cinza para fora de casa, tirei todos os gatos do quarto da minha mãe e tranquei a porta. A bem da verdade, apenas a Shiva não podia entrar naquele quarto, mas achei mais prático estender a proibição para todos. Four legs bad, two legs goood.

Estava na cozinha preparando a janta quando vejo uma pequena patrulha de felinos domésticos no intento de uma fuga noturna.  Como eu não havia decorado todas as regras, sempre que aparecia um bigodudinho pleiteando alguma safadeza eu corria em direção à lista para conferir se aquele gato possuía autorização para fazê-lo.

Maravilha. Tornei-me uma espécie de segurança de casa noturna felina. Olha pro gato, checa na lista. Gato, lista. Gato, lista. Hummm. Pode passar. Você não! Você não, hein?! (Rshhhh / Pow! / Meowwww). Ei! Que gato é esse? (………) “Quem é você?!”

Às vezes parecia que havia mais gato do que nome na lista. Será que tem algum impostor comendo às minhas custas?! Eu não me lembro da fisionomia de todos os meus gatos, podem me achar uma insensível. Agora, alto lá, eu não tenho um gato preto! Todavia, é ainda pior quando parece ter mais lista do que gato. Após duas semanas sozinha com sete gatos, parece-lhe óbvio que eles só podem estar se reunindo às escondidas para tramar um golpe de Estado contra você.

Por que raios toda essa burocracia? Explico: A razão de ser dessas regras está relacionada com a falta de destreza de alguns gatos e problemas urinários de outros. Alguns gatos não conseguem descer do telhado, então, a menos que eu queira acordar de madrugada para resgatar o safado do bicho – o que obviamente eu não iria fazer – é melhor seguir as regras. Além disso, alguns deles são adolescentes mijões que se enfezam diante da castração da sua liberdade noturna e, de birra, fazem xixi na sala.

Após alguns dias, no ápice do ócio, fui tentar brincar com a minha gata mais velha. A Jasmin. Comecei a engatinhar fazendo “meow, meow” o melhor que minha humanidade permitiu, tentando enganá-la.  Nunca alguém me olhou com tanto desprezo.

Senti vontade de dar um soco na minha gata. Pela audácia. Aquilo só podia ser uma cara de desprezo. É a segunda vez que eu tenho um surto violento imbecil em face de um oponente pouco favorecido. Contudo, dessa vez o hipossuficiente era um semovente, o que é um avanço considerável tendo em vista que na primeira vez o adversário era um processo de falência. Em ambos os casos, contive-me por rara manifestação de juízo.

Dizem que os animais se parecem com os donos. Talvez haja certa ironia em ter uma gata mau humorada. Se você reparar, dos sete gatos que moram comigo, seis são fêmeas. E, vejam só, justamente o único gato que não tem permissão para permanecer dentro de casa, sob hipótese alguma, é o representante do sexo masculino. A propósito, ele sequer tem nome. Sinto-me verdadeiramente tocada agora. Ou não.