Constipação Mental

Memórias deveriam ser que nem comida: o que nos fizesse mal e o excesso seriam eliminados pelo organismo diariamente. Imagina que maravilhoso poder deixar um punhado de memórias todos os dias no vaso sanitário. A vida seria tão mais leve. Para certas memórias, não há destino mais adequado. Não servem para nada além de causar mal estar. São inúteis, mas insistem em ficar ali, ocupando espaço e sendo indigestas. Não poder descarta-las produz um efeito muito semelhante ao da constipação intestinal (prisão de ventre).

Pensando assim, seriam os antidepressivos laxantes? Por falta de solução melhor, talvez, mas, dentro da analogia, tecnicamente eles apenas impedem teu cérebro de te avisar constantemente que você está com dor de barriga. A consequência tende a ser a mesma. Outra cruel coincidência. Por vezes literal, já que sertralina provoca diarreia. Desculpem-me pela imagem mental.

A habilidade de esquecer nos mantêm lúcidos. Porém, não costumam nos ensinar a importância disso. Pelo contrário, desde o momento em que nascemos somos treinados para não esquecer; memorizar, decorar o maior número de informações possíveis. Aprendemos métodos de memorização exaustivamente, e nada ou muito pouco sobre como esquecer memórias desagradáveis. Ambas as habilidades precisam ser exercitadas para tornar o processo mais fácil, ainda que ter uma exímia memória seja mais útil para a sociedade do que a sua saúde mental.

Imagina se ao lado desse incessante treino para memorizar, nós fôssemos cobrados para sermos perfeitos, autocrítica lá em cima. Ufa, ainda bem que a nossa sociedade não é assim. Se fosse, as pessoas iriam correndo pedir um antidepressivo, no qual elas iriam ler, dentro dos possíveis efeitos colaterais: “esse remédio pode aumentar o ímpeto suicida”.

Imagina que ridículo seria tomar um remédio para parar de se sentir miseravelmente triste e um dos possíveis efeitos colaterais ser se matar! Algo como comprar um remédio para dor de cabeça e um dos possíveis efeitos colaterais ser “pode provocar enxaqueca”. Não sei da onde tirei isso.

Mas não sejamos levianos, afinal, a proposta de todo antidepressivo é, em suma, tão somente impedir seu cérebro de te avisar a todo instante que você está triste. Ninguém falou nada sobre permanecer vivo. E, bom, tecnicamente, morto não sente tristeza. Falando em morto, se você tomar uma dose alta pode tentar fazer uma pontinha em algum filme do Romero no tempo livre. Do Romero, porque os zumbis do Danny Boyle correm mais que o capeta – perfeito para os que sofrem de transtornos de ansiedade. Existe uma classe de zumbi para cada CID, favor respeitar a sua. E cuidado: alguns antidepressivos tiram a fome, o que comprometeria parte substancial do seu desempenho. Que vida, hein? Alguns remédios te deixam tão mal que nem pra ser zumbi você serve.

E aí? Constipação mental ou diarreia? Ser atormentado por memórias ou quase não tê-las? Um remédio que pode aumentar o ímpeto suicida daqueles que já não tem muita vontade de viver é o melhor que temos? Sério? Deprimido, zumbi ou suicida, é isso? Puxa…

Jura, Sherlock?

Ah! Que bom que o mundo está repleto de exímios constatadores do óbvio!

Foi demitido? Oh, céus! E agora?! Como você vai pagar as contas?! Você tem dinheiro para o aluguel?! Vamos adicionar um pouco de pânico à situação! Afinal estar sem dinheiro em uma sociedade que depende dela para tudo não é assustador o bastante por si só. Claro, claro, depois vamos falar que “o importante é manter a calma” e que “tudo dará certo”! Ou que é só ter fé em Deus! Ele escreve certo por linhas tortas e fiscaliza o seu fiofó, então nada de dar o cu. Olhe para o céu e fale com ele, mas se ele responder, fodeu, você pirou.

Quem se fode uma vez ou outra pode não ter reparado para se irritar o suficiente. Mas se você é da turma dos fodidos, sabe que é surreal o número de pessoas que vê alguma utilidade em te lembrar do quão fodido você está – em detalhes e pontuando as (óbvias) consequências.

Outra postura restrita ao seleto grupo de pessoas de intelecto superior é chamar alguém de gordo ou magrelo. Não me refiro aos lampejos de quinta série que eventualmente assombram a vida adulta, mas sim aqueles comentários “do bem”. Comentários “para o seu bem”. Aqueles de tia em ocasiões festivas. Repare como os argumentos mais cruéis já construídos pela humanidade são sempre os que “te fodem para o seu próprio bem”. Mas vamos voltar a impertinente constatação do seu biotipo. Puxa vida! Que bom que você me avisou! Eu quase não havia notado! Afinal, eu não tenho uma porra de espelho em casa e a sociedade inteira não me julga por isso desde o momento em que nasci.

Quiçá seja saudável, eventualmente, partir do princípio de que a pessoa não é uma completa idiota e de que você talvez não seja exatamente um gênio da arte da dedução. Que tal supor que a pessoa já constou o problema e está agora buscando soluções para ele?

A epopeia do tigre enjaulado: a criança que perdeu o braço e a sociedade sem cabeça.

Por que raios toda hora que acontece alguma tragédia começa uma corrida desesperada para encontrar um culpado? É tão fora de cogitação pensar que às vezes – somente às vezes – coisas horríveis acontecem e não vai ter ninguém para ser responsabilizado? Sempre alguma cabeça precisa rolar em praça pública? Seja por iniciativa da polícia judiciária ou da moral?

É tão óbvio que está começando a me irritar essa história do tigre. Não, não tem como punir o felino, a vítima ou o pai da vítima. O pai da vítima já foi punido pela situação em si. A vítima só se pune em casos de estupro e eu me recuso a comentar sobre punir o tigre.

Longe de mim definir o que as pessoas devem ou não discutir. Mas não seria mais frutífero discutir se houve negligência por parte do zoológico? A própria existência de zoológicos? Educação – que é excelente e disponível a todos no Brasil -, normas de segurança e, mormente, uma coisa abundante no mercado chamada empatia?

É facílimo simpatizar com heróis, pessoas perfeitas e bichinhos inocentes.

Uma criança perdeu o braço. Um pai terá que conviver com isso para o resto da vida. Um pouquinho de compaixão não faz mal, viu?

Esquerda Caviar e a Direita Mendicante

Se esquerdista que se preze deve fazer voto de pobreza, direitistas que aceitam felizes 13º, férias, horas-extras e demais direitos trabalhistas – ou melhor, esmolas trabalhistas – são o que eu vou chamar de “direita mendicante”.

Afinal, o que é o 13º senão uma bolsa-salário? Uma verdadeira afronta à meritocracia. Receber sem trabalhar, que absurdo! O que será que o juiz das manchetes do dia pensa sobre licença-prêmio e os demais auxílios que recebe?

Esquerdistas devem fazer voto de pobreza tanto quanto direitistas devem recusar tudo o que for coisa de pobre ou fruto da luta de pobres. Por exemplo, ser demitido quando ficar velho e abrir mão do FGTS, que tal?

Seguindo esse raciocínio, para ser um direitista que se preze, esqueça os direitos sociais previstos na Constituição e, falando em Constituição, você deve extirpar também o capítulo da seguridade social. Ou, para não sermos tão radicais, apenas aquela maldita seção que fala do auxílio reclusão! Que ódio! Como se chama mesmo? Da previdência social?

FGTS e aposentadoria é coisa de esquerdista. Direitista que é direitista sabe que é só trabalhar honesta e arduamente a vida inteira e economizar. O cunhado do primo da minha tia, que é negro e veio lá do nordeste, conseguiu, sem nunca precisar dessas esmolas aí.

Logo, é óbvio que isso deve virar política pública! – ou ao menos a postura de alguém de direita de verdade! Ou vai dar uma de direitista mendicante? Vai chorar benesses do Estado/empregador agora?

Da zona cinzenta e o racismo

Quando estava na Federal, algumas meninas morenas e negras no vestiário comemoravam em tom de grito de guerra: “viva às morenas!” Daí eu cheguei e gritei junto: “É isso aí! Viva as morenas!’. Elas olharam para mim, riram, e me mandaram calar a boca, em tom de brincadeira. Meus amigos caucasianos, todavia, inclusive os de esquerda, sempre deixaram claro que eu já havia passado “das seis da tarde” e até comparavam minha cor e meus traços com outras “morenas” da mesa.

Durante a adolescência, contei a uma das minhas melhores amigas que estava indo à praia, super empolgada, e então ela respondeu algo como: “Mas porquê? Dai você vai tomar sol e ficar negra…. daí você vai ficar feia”. Também ouvi de outra das minhas melhores amigas: “A fulana é tão linda! É isso, aquilo, branca….”.

De outras pessoas, inclusive de um rapaz com cabelos crespos, que não perdia uma chance de me atazanar dizendo que eu era menos bonita por ser morena – na intenção deliberada de tentar me ofender – ficou ofendidíssimo quando eu me revoltei e disse que era mais branca do que ele. Pronto. O cara surtou. Perplexo, esticou as mangas da camisa para tentar mostrar o braço, onde não bate sol, para tentar provar que eu estava errada.

Chegou ao meu conhecimento que o pai desse rapaz comentou sobre um amigo nosso: gostei do fulano. “É que sabe… é raro encontrar um negro que estude e trabalhe”. Ele fora adotado e a mãe dele, nas próprias palavras dele, era “baiana”.

Voltando a sensação de zoológico, meus amigos de esquerda, super contra o racismo e tudo mais, chegaram a me colocar lado a lado com outra moça “que também já havia passado da seis da tarde” para decidir qual era mais morena. Depois começaram a analisar nossos narizes: o nariz dela (eu) é de árabe. Imagina! É de italiano. Do meu então melhor amigo: “É engraçado como seus pais são tão brancos, mas você é morena”. 

Da minha falecida avó, com quem comentava de forma alegre, depois de voltar da praia, que estava bronzeada e que minhas amigas do colégio haviam dito que eu estava melhor assim, pois antes eu estava muito pálida, branca, ela logo me interrompeu: “Você não é branca, você é morena”.

Isso são coisas que eu ouvi, repito, de grandes amigos e familiares. Coisas que foram ditas por pessoas que gostam de mim. Coisas ditas em alto e bom tom e na minha cara. O que foi dito de mim nas minhas costas? O que foi dito de mim por aqueles que não gostam? O que foi dito de mim por pessoas assumidamente racistas?

Eu, que estou na “zona cinzenta”, que não posso gritar “viva às morenas” sem rirem de mim, e sou tratada como zoológico pelos inegavelmente brancos, já presenciei tanto racismo em minha vida, que me pergunto como raios sequer se questiona se existe ou não racismo no Brasil.

E eu não vou me fazer de coitada. Não vou dizer que gostaria de ser mais morena, para ao menos poder ter apoio do movimento negro. Não, eu sei que se eu fosse mais morena, seria ainda pior. Mas tenho certo receio de ser hipócrita ao dizer que não gostaria de ser mais branca e que estou plenamente feliz com a minha cor, foda-se qual ela seja.

Vejam, hoje, sem dúvida, minha autoestima vai bem, obrigada, e estou bem mais segura e bem mais indiferente ao que os outros dizem. Fodam-se eles com suas opiniões sobre a minha cor. Hoje, se me pedissem para ficar lado a lado com outra não-branca eu mandaria a todos tomarem nos seus respectivos orifícios anais e diria o quão racistas os supostos esquerdistas estão sendo. E, se quiserem, que abram o photoshop com uma foto minha e cheguem à conclusão que definitivamente vai mudar o mundo, pois eu respeitosamente me recuso a ter essa conversa que não leva a lugar algum e só me machuca.

Digo que seria hipócrita não porque não gosto do meu tom de pele, mas porque sei que certas coisas simplesmente não acontecem com pessoas inegavelmente brancas. Segundo, eu também estou inserida na cultura da beleza europeia. Mulheres são julgadas desde o momento que nascem até o momento que morrem por seus atributos físicos. Ou você é magra demais, gorda demais. As mais cheinhas vivem dizendo que quem gosta de osso é cachorro. E eu não acho que a conversa seja por aí, mas isso é assunto para outro post. Então eu não sei, honesta e genuinamente, se eu pudesse escolher, teria optado por esta cor. Eu sei que se fosse mais branca e tivesse olhos azuis ou verdes, seria automaticamente considerada mais bonita. Eu queria dizer foda-se à cultura de beleza europeia, mas é uma questão complexa.

E como disse Chico Buarque, no Brasil todo mundo se acha branco. Ele até mesmo ri: Só no Brasil que eu sou branco! Procurem no youtube, é interessante o caso de racismo que familiares dele sofreram.

Queridos amigos caucasianos, que gostam de dizer que suas famílias são “puramente europeias” – aliás, minhas família é italiana e portuguesa, mas, novamente, essa conversa nos leva aonde mesmo? – para o resto do mundo nós somos latinos, qualquer coisa, menos brancos ou brancos como eles. E ainda que você esperneie e mostre sua árvore genealógica, somos “third worlders”. As brasileiras, putas. Ou seja, meus caros, de alguma forma você será tratado por eles basicamente como brasileiros costumam tratar os nordestinos.   

Eu sei que você não me ama, mãe. E tudo bem.

Ontem li um post de uma moça, pedindo empatia aos leitores e fazendo uma breve referência ao mito do amor materno – incondicional e instintivo – antes de repassar o endereço de um blog.

No tal blog, a autora revela que muitos de seus leitores ali chegaram pesquisando no google: “odeio ser mãe” e, por conta disso, resolveu dedicar um post sobre o assunto.

Não por acaso, esse post conta com mais de cem comentários – boa parte anônimos – de mulheres confessando aquilo que jamais poderiam dizer em público, sequer entre amigos íntimos e familiares. A vida pública, privada e  secreta, como dizia Gabo, cabe perfeitamente como exemplo aqui.

Fico imaginando que muitas mães passam a vida negando a si mesmas que  simplesmente não gostam dos filhos – ou gostam de um, mas não do outro. Ou gostam dos filhos, mas não encontram a prometida realização plena. Ou  odeiam o ofício de “ser mãe” – afinal, mulher tem que aguentar tudo pelos filhos e pela família, ou é egoísta, mimada sem coração.

Tive certeza, todavia, do quão idiota tenho sido até então. Pois, se de um lado, não quero ter filhos e acredito que o amor materno é algo construído, portanto acho perfeitamente normal não sentir a menor vontade de tê-los, por outro, passei a vida amargurada tentando fazer com que a minha mãe me amasse.

Assim tenho vivido, tentando, tentando; cobrando um amor que, no fundo, já havia percebido que não existia. Outros já haviam percebido. Nunca fora exatamente um segredo. O que nunca me impediu de buscar uma resposta natural de afeto e, por conseguinte, sofrer por nunca tê-la.

O choque foi perceber que não conferi a ela, minha mãe, a mesma cortesia. Nunca a vi como mulher, pessoa, ser humano, senão como “minha mãe”. Sequer a mãe abstrata dos livros que tanto li e reli que desmitificam o tal do amor materno instintivo. Fui incapaz de olhar o ser humano em concreto, a mulher que, tal como eu, foi pressionada a vida inteira a desejar, ter e amar os filhos.

A diferença é que eu não tive filhos, minha mãe teve, mas isso importa? A maioria das mulheres que comentaram o blog, inclusive a autora, não são pessoas como eu, que nunca quiseram ter filhos e não pedem desculpas por isso. São mães que queriam.

Se foram enganadas pelo conto de fadas da família margarina, ou cederam a pressão social, ou amam os filhos, porém odeiam o ofício, ou amam um dos filhos mas odeiam o outro, ou queriam ter abortado, ou faltou dinheiro, apoio. Se foram mães solteiras ou, ainda que casadas, se viram abandonas pelos maridos….nada disso realmente importa. Não mudaria nada saber em qual desses exemplos minha mãe se encaixa. Nem para mim, nem para ela.

A dor importa. Para cada mãe profundamente envergonhada e deprimida pela realidade diversa do prometido e imaginado, há filhos não amados em uma incessante busca dos porquês – para dizer o mínimo que o abandono material e/ou afetivo pode causar.

Nunca havia me ocorrido de forma tão lúcida que caí na mesma fantasia, só que no sentido inverso. Não, minha mãe não saiu de um comercial de “feliz dia das mães”; ela não me ama incondicionalmente, condicionalmente, e nunca teve a obrigação de me amar.

Falando em obrigação, uma das mães mencionou que compensava falta de amor com cuidados. Minha mãe lavou minhas fraldas na mão. Fazia minha lição comigo. Essas são as coisas que sempre ouvi como resposta ao: “você não me ama”. Quem ama cuida, mas não necessariamente quem cuida, ama.

Retirada do contexto original, com uma pequena adaptação, e, sem dúvida, a parte mais difícil de aceitar e aprender a lidar: sometimes it ends in love but sometimes it hurts instead.