Língua: Um fenômeno mutável

A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. [Graciliano Ramos]

De segunda a sexta-feira faço parte do universo jurídico, do universo cujas normas ditam: em caso de dúvida entre duas palavras, escolha a mais difícil. Afinal, não é qualquer “pé de chinelo” que deve conseguir entender o que criaturinhas da classe doutores sem doutorado, do filo pessoas muito principais e da ordem da suprema pedância escrevem. Fora desse universo, todavia, reservo-me um pouco de sensatez que me resta e me preocupo apenas em transmitir a mensagem. Compreendo a importância de possuirmos um vasto vocabulário – é necessário dizer, domínio básica da gramática – é necessário saber dizer, de uma boa técnica de escrita – escrita sem rúidos – etc.. No entanto, tudo isso, obviamente, sem perder de vista a finalidade da linguagem: comunicação.

Ora, se o principal finalidade da linguagem sempre foi o de transmitir a mensagem, possibilitando a comunicação de quem escreve com aquele que lê, por qual razão deveríamos nos esforçar para escrever de forma complicada, prolixa e cansativa? Sobretudo quando discorremos sobre coisas sem qualquer importância ou impacto social como…ahn o Direito?

Nesse particular, já no século XVIII, Cesare Beccaria, no célebre “Dos Delitos e das Penas”, já protestava contra a legislação de sua época, escrita sumariamente em latim. Alertou, sabiamente, que

“se a interpretação arbitrária das leis é um mal, também o é a sua obscuridade, pois precisam ser interpretadas. Esse inconveniente é maior ainda quando as leis não são escritas em língua vulgar”.

Hoje, século XXI, nossas leis não são mais escritas em latim – não fique triste, há sempre um brocado – porém, ainda são escritas de modo inacessível à maioria da população. Na prática, pense: faz diferença que o Código Civil não esteja em Latim?

Código Penal.Artigo 121: Matar alguém:Pena: reclusão, de seis a vinte anos.

Tranquilo, não? Será que progredimos? Veja esse:

Código Civil Art. 1.422. O credor hipotecário e o pignoratício têm o direito de excutir a coisa hipotecada ou empenhada, e preferir, no pagamento, a outros credores, observada, quanto à hipoteca, a prioridade no registro.

Art. 1.423. O credor anticrético tem direito a reter em seu poder o bem, enquanto a dívida não for paga; extingue-se esse direito decorridos quinze anos da data de sua constituição.

Conheço muitas pessoas que ficariam ofendidíssimas se fossem chamadas de “credor anticrético”. Anticrético é a tua mãe. Eu, particularmente, sempre morri de medo da anticrese. Até o dia que conheci a enfiteuse. Parece coisa que dá no cérebro.

Outro ponto importante diz respeito às transgressões linguistas. É verdade que cada um de nós tem um erro ortográfico preferido para odiar. Eu já sofro de ansiedade, não precisa escrever com “c”. Porém, por outro lado, se prestarmos atenção, a partir da mutação da expressão “não obstante” chegou-se ao vocábulo “inobstante”, sendo este um neologismo aceito e muito utilizado no mundo jurídico. Sendo certo que a língua evolui à medida que evolui a sociedade, resta nos perguntar: dos diversos neologismos criados, quais são bem-vindos e quais não? São eles provenientes de quais segmentos da sociedade? De quais classes? Se é verdade que a língua deve acompanhar a sociedade, também é verdade que a soeciedade não é apenas a parte mais rica dela.

Também é razoável ponderar que a partir do momento em que a convenção estipulada, a dita norma culta, é mais desrespeitada do que seguida, abre-se margem para se questionar se essa “norma” é “norma” só de nome, e se não é hora de adequá-la. Afinal, não é a língua efetivamente falada na sociedade. É o que então? Utopia? A língua, como sabemos, é um fenômeno mutável, tendo se transformado e inovado ao longo dos séculos. Caso contrário, ainda falaríamos latim e o Português é uma língua “vulgar” a depender da perspectiva. É possível argumentar que alterar a convenção só oficializa aquilo que já foi acolhido e pacificado pela sociedade.

Sobre zombar dos erros de português alheios, é irresistível pois possibilita que até o representante mais zé mané do determinado circulo social, com determinado estudo e de certa classe social, possa se sentir importante ao humilhar um pobre ignorante. Nesse ponto, importante lembrar que a palavra “educação” tem dois sentidos.

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4 comentários sobre “Língua: Um fenômeno mutável

  1. De fato essa “disputa de classes” nos prejudica como sociedade. O preconceito existente, isso vale para todas as classes, muitas vezes nos impede de tentar mudar as coisas, nos impede de formular uma nova visão de mundo, onde uma possível igualdade poderia ser sugerida e formada.

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  2. Ass: Karl Marx?

    (Brincadeira, Li o texto, mas eu demoro mais escrevendo algo do que lendo. Mais tarde comento que nem gente…rs)

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  3. Interessante o texto.
    Escreveria outro como um extra.
    Eu vivo batendo na tecla do S, SS, x Z. A semiótica diz que a lingua surgiu do momento em que nomeamos o signo. A escrita É (e eu coloco aqui em maiuscula o “É”) a forma desenhada do som. Assim o som é o dominante e o desenho é sua consequência. S não deve ter som de Z. Se falamos com som de Z a Palavra DEVE ser escrita com Z.
    Esse é o link que fazemos: Da fala para a escrita. (o signo símbolo), e nao o contrário.
    è por isso que muita gente escreve errado, Na verdade eles estão escrevendo certo.
    Por uma convenção de se seguir a Etmologia (a história da palavra) a questão “lingua que muda com a sociedade” é corrompida. Etmologia é uma regra que deturpa a mutação e as relações de pensamento fala-desenho / signo simbolo.

    🙂

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