Síndrome de Paulista – Paulista’s Syndrome

Por Ananda Morelli

Tradução: Ananda Morelli, Dave Boss and Andrea Campos. 

Suponha que você esteja de férias fora do estado de São Paulo ou, como muitos de nós dizemos, “fora do Brasil”, e resolve ir ao mercado num domingo. Você não tem pressa, não está fazendo nada de útil; se estiver, o errado é você, é Domingo! Lá chegando, você faz sua compra normalmente, ou seja, correndo, e a leva até o caixa, feliz com a sua eficiência. Aí, o caixa pega um produto, encosta-o no leitor, espera um pouquinho, sacode o leitor, encosta novamente, coloca o produto no balcão. Depois, com a invejável calma de mil budas baianos ele pega uma sacolinha, olha para sacolinha, respira, dorme um pouquinho, pega um produto, coloca na sacolinha, daí pega outro, e outro, e outro… Você está espumando de raiva. Seu instinto paulista apita e você quer enfiar todos os produtos – e a cabeça dele – dentro da mesma sacola e dar o fora dali o mais rápido possível. Você não aguenta esperar quinze minutos para terminar as compras, mas vive com muito orgulho numa cidade em que se perde, em média, duas horas no trânsito.

Aqui em São Paulo você já acorda ressentido com o despertador. Ele, de alguma forma, sempre indica que você está atrasado. Petulância do mensageiro de más notícias. Pééé, acorda desgraçado. Sem falar que com a função soneca todo mundo começa com “só mais cinco minutinhos” e termina ponderando quão fundamental é tomar banho. Mas isso não é estressante o suficiente, então nós adiantamos os relógios e vivemos sempre virtualmente atrasado para assim evitar estar atrasado de verdade.  Vai entender.

Ótimo! Você acaba de acordar e já está puto – mas quem acorda cantando feliz gente boa não é, sejamos justos – e então levanta da cama, corre para a cozinha, tropeça no gato, pede desculpas para ele, cambaleia cinco passos, daí percebe que você não tem uma porcaria de gato e acaba de pedir desculpas para um cadeira. Inclina as mãos meio que para frente, feito zumbi, para manter o equilíbrio, e tenta chegar à cozinha, farejando o ar como um cachorro manco para ver se alguém já fez café.

A empregada te vê e toma um susto. AHHHH diabo! é o novo bom dia. Não tem café pronto. Como pode haver pessoas vivas nessa casa e não ter café? Que tipo de gente acorda e não faz café? Como alguém conversa e interage com outros seres vivos sem ter tomado café primeiro? Inacreditável. Você então evita contato visual o máximo que pode e liga a cafeteira. Deixa a cafeteira ligada e vai tomar banho.

No banho, escova os dentes. Resolve esticar as pernas só um pouquinho na banheira e dorme com a escova na boca. Sai do banho com um pouco de xampu ainda no cabelo. Foda-se, faz de conta que é gel. Senta-se à mesa, ainda com a toalha na cabeça. Toma café enquanto seca o cabelo. Aí você sai de casa, pega o carro e fica duas horas com o ar condicionado ligado, tocando a 9ª de Beethoven na buzina, numa velocidade de 30 cigarros por minuto.

Se não tiver carro, daí é uma crônica à parte. O metrô paulistano possui função socioafetiva. Está se sentindo sozinho? Vai fazer baldeação na Sé. Dos mais feios aos mais tímidos, tem baforada úmida no cangote para todo mundo. Pelo lado positivo, é tão cheio que você sequer precisa fazer esforço para parar em pé. Nem para sair do vagão: você é compelido, ou expelido, a fazê-lo.

Hoje, domingo, presenciei um fato assaz curioso no metrô paulista. Uma mãe, acompanhada de sua provável filha, segurava a criança firmemente pelo ombro, como se ela fosse escapulir a qualquer momento. Cheguei primeiro à plataforma, mas já previa uma ultrapassada selvagem pela direita. Quando o trem chegou, mal as portas se abriram e eu ouvi: “Vai! Corre e pega um lugar pra você!” E então a mulher empurrou a criança para frente, como se fosse um daqueles galos de briga, para que a garota avançasse desesperadamente sobre um dos bancos. A criaturinha correu, balançando os bracinhos e os cabelos, seguindo o exemplo da mãe que se mostrava apavorada frente à possibilidade atroz de ter de seguir viagem em pé.

Ocorre que o vagão estava vazio. Nada justifica falta de educação, mas é pior se a falta de educação sequer tem um objetivo. E percebo que o ato animalesco costuma ser seguido por risadas feias. Todo mundo se atropela, dá cotovelada na cara do outro, empurra com o joelho, e depois todo mundo ri. Olha como a gente é fudido. Se tiver pandeiro fazemos um samba. Novamente a função socioafetiva do metrô. Aqui você pode brincar de dança da cadeira, só que a música são os urros daqueles que parecem já terem perdido parte da humanidade, a troco de um banco.

Na selva de pedra não mais se mede, sequer, a utilidade da barbárie dos atos cotidianos. Você está tão acostumado a querer chegar primeiro que até se esquece que é domingo. Você quer ser o primeiro a descer do ônibus e trava a passagem de todo mundo que quer passar. Não façam que nem eu, que certa vez fui ultrapassada por uma pessoa na escada rolante e corri atrás do desaforado, até que me toquei que estava disputando corrida com o segurança do metrô.

E ele não iria tomar o meu lugar. Nem se eu fosse educada. Nem se eu tivesse calma. Nem se ele fosse paulista.

Assume you are on vacation outside of the state of São Paulo, or as many of us would say, “abroad”, and you decide to go to the supermarket on a Sunday. You are not in a hurry, you are not doing anything useful; if you are, the blame’s on you. It is Sunday! Once you get there, you do your shopping as you always do, that is, in a heartbeat, and then take your groceries to the register. Then, the cashier takes one single item, leans it against the scanner, waits a minute, shakes the scanner, leans the item on it again, puts the item on the counter, and so on. Afterward, he grabs a bag with the enviable calmness of a thousand baianos buddhas, looks at the bag, breathes, falls asleep for a bit, then takes the item, puts it inside the bag, then another, and another, and another….You’re fuming with rage. This triggered your Paulista instinct and you want to stick all the products – and the cashier’s head – inside a single bag and get the hell out of there as soon as possible. You cannot wait 15 minutes to finish your shopping, but you proudly live in a city where one loses at least two hours in traffic daily.

Here in São Paulo, you already wake up resentful to the alarm clock. It, somehow, always indicates you’re late. What a petulance coming from the bad news messenger. Pééé, “Wake up, you bastard.” Not to mention that thanks to the snooze function, everyone starts with “just 5 more minutes” and ends up re-evaluating how fundamental it actually is to bathe every day. But this is not stressful enough: then we advance the clock so that we can live virtually late to avoid being actually late. Go figure.

Great! You have just woken up, and you are pissed off already – but, let’s be fair, who wakes up singing and happy? Good people, certainly not – then you get out of bed, run to the kitchen, stumble on your cat, apologize to it, stagger five more steps-, then realize you don’t have a cat and you have just apologized to a damn chair. Walking with your hands leaning forward like a zombie so you can try to keep your balance, you try to get to the kitchen, sniffing the air like a lame dog to see if someone made coffee already.

The housekeeper sees you and gets scared: “AHHHH devil!” is the new “good morning”  The coffee’s not ready. How can exist alive people in this house and not have coffee? What type of people wake up and don’t make coffee? How someone speaks and interacts with other human beings without having drunk coffee first?  Unbelievable!  You then avoid visual contact to the maximum extent possible and turn on the coffee maker.  You leave the coffee maker on and go to take a bath.

In the bath, you brush your teeth.  You resolve to stretch your legs only a little in the bathtub and fall asleep with the toothbrush in your mouth.  You leave the bath with a little shampoo still in your hair.  Fuck it, you can tell people it’s hair gel.  Sit down at the table, still with the towel on your head.  You drink coffee while your hair dries.  Then you leave the house, get the car and spend two hours with the air conditioner on, playing Beethoven’s 9th on the horn, at a speed of 30 cigarettes per minute.

If you don’t have a car, then it’s a different story.  The Paulista subway has a socio-affective function.  Are you feeling alone? You go to make a transfer in the Sé Station. From the ugliest to the timidest, there’s  a humid whiff of the scruff of everyone.  On the positive side, it is so full that you don’t even need to make an effort in order to stand still  Nor to leave the car:  you are compelled -or expelled- to do it.

Today, Sunday, I witnessed a rather curious sight on the Paulista subway.  A mother, accompanied by her likely daughter, held the child firmly by the shoulder as if she were to slip away at any moment.  I got to the platform first, but was already predicting a savage overtaking on the right.  When the train arrived,  the doors had barely opened when I heard:  “Go!  Run and get a place for yourself!”  And then the woman pushed the child ahead, as if it were one of those cockfights, so that the little girl advanced desperately onto one of the benches.  The little creature ran, rocking her little arms and her head, following the example of her mother who looked terrified facing the atrocious possibility of having to continue the trip standing.

It turns out that the train car was empty.  Nothing justifies the lack of politeness, but it’s worse if the lack of politeness doesn’t even have a goal. And I realize that the animalistic act usually is followed by an ugly laughter. Everybody tramples everyone, elbowing each other in the face, kneeing each other, and afterward everyone laughs.  “Look how screwed we are!”. If we have a tambourine we do a samba.  Again, the socio-affective function of the subway.  Here you can play musical chairs, only that the music is the howls of those who already appear to have lost part of their humanity, in exchange for a bench.

In the concrete jungle, one no longer measures, even, the utility of the barbarity of everyday acts.  You are so used to wanting to arrive first that you even forget that it’s Sunday.  You want so much to be the first one to get off the bus that you block the path of everyone who wants to pass.  Don’t do like me, who once was overtaken by a person on the escalator and ran after the impertinent one, until I realized that I was racing against the subway guard.

And he wouldn’t take my place:  Not even if I were polite  Not even if I were calm.  Not even if he were a Paulista.

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