Como se tornar um idiota

No primeiro semestre tive que encaminhar um e-mail aos meus colegas de classe para conversar sobre um trabalho. Inocentemente escrevi algo do tipo: “E aí, galera? Tudo bom com vocês?! Então, como é que nós iremos dividir o tema? Bjos!! Nanda”. Recebi como resposta:

“Prezados Colegas, bom dia. Sirvo-me do presente para tratar acerca do conspícuo tema que teremos o júbilo de abordar em sala (…). Cordialmente, Fulano da Silva Sauro.”

E aí? Bom, e aí que eu me senti uma idiota! Puta merda, onde que eu fui me meter? Estou fazendo a faculdade errada! Fiquei imaginando esse sujeito na feira: “Pela ordem! Pela ordem!”. Eu pechincho na feira.  De dar vergonha. Esse cara vai dar carteirada para comprar chuchu. “Tem desconto para pau no cu?” É o tipo de gente que se rejubila ao ouvir o moço do churros se dirigindo a ele como “Doutor Fulano”. Daí o babaca diz com um sorriso amarelo, só para parecer moderno: “Não, não. “Pode” me chamar “só” de Fulano”. Afinal, é um puta favor poder se referir a alguém que não é médico nem tem doutorado por “você”.

Mas voltemos ao idiota. Será que daqui a cinco anos esse  meu colega vai conseguir ir à padaria e comprar tudo o que deseja em cinco minutos? Ou será que ele vai discutir com o padeiro porque o tamanho do pãozinho fere a dignidade da pessoa humana? Decerto irá rasgar seu latim para pedir mortadela.

A propósito, no primeiro semestre a maioria dos meus colegas usava jargões jurídicos – cretinos – em latim, no nick do msn. “Mamãe, mamãe, aprendi uma palavra nova! Nova não, velha. Muito velha! Assim que é bom! Se é arcaico deve ser importante.” As pessoas mal começam a fazer Direito e já querem processar todo mundo. Ano passado uma garota deu um tapa no rosto de um garoto impertinente, daí a sala queria levá-los à delegacia para registrar a “ocorrência”. Na minha terra, apanhar de mulher é no máximo motivo de piada.

Não sei como as pessoas nos aguentam. Na última vez em que eu discuti com um advogado pensei seriamente em encaminhar um projeto de lei para acrescentar uma qualificadora no crime de auxilio ao suicídio.

Quando aquele estagiário se matou no Fórum Trabalhista todo mundo falava:  “Ah, tadinho! O pobrezinho se jogou de lá de cima… Que horrível! ” Eu pensei: Horrível nada! Depois do que ele deve ter ouvido no escritório, pular lá de cima deve ter sido um passeio no Hopi Hari.

Muitos advogados reclamam o direito de serem presos numa sala de estado maior. Sim, nós temos a prerrogativa constitucional de sermos presos num lugar em que não poderemos encher o saco de mais ninguém. Afinal,  mandar um advogado para uma cela comum seria bis in idem.

Certa ocasião eu estava sendo entrevistada por dois advogados quando um deles, quem comandava a entrevista, terminou suas perguntas e se dirigiu ao outro:

– Você não vai fazer aquela sua pergunta?

– Qual?

– Aquela sua favorita! Dos bichos…

– Ah, é! – olha para mim – Se você fosse um bicho, qual você seria?

Os prezados doutores também adoram nos perguntar “Como é que você se imagina daqui a cinco anos”. Jura que preciso?

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