Bandidos são os outros

Bandidos são os outros

Álvaro de Campos nunca conheceu quem tivesse levado porrada. Eu nunca conheci quem fosse bandido.  Luciana Penteado, mãe da estudante de Direito Mayara Petruso, queixou-se recentemente: “Nossos dados pessoais e endereço foram expostos na internet como se fossemos criminosos(aqui). De fato, Mayara incorreu em alguns tipos penais quando publicou seu comentário cheiroso contra nordestinos. Quem comete crime é criminoso, certo? Não na prática.

“Tirem o meu filho da cadeia, ele não é bandido”.  Dizem as mães. Até aqui, poderia parecer apenas mais uma mãe coruja. Mas vai além. “Ele vai ficar naquele lugar horrível, cheio de bandido?”. O que não sabem essas mães é que esse lugar horrível, “cheio de bandido”, está repleto de gente que, tal qual o filho delas, furtou uma penca de bananas.

A mãe da Mayara e os demais parentes de “criminosos” não os vêem como tais, apesar de saberem que eles praticaram um crime, porque no imaginário popular “criminoso” é algo muito além do “incorrer em tipos penais”. Claro que a Sra. Luciana pode ter dito isso por acreditar que ofender nordestinos não é crime. Mas, na esmagadora maioria das vezes, a negação se dá por conta da construção quase mística da figura do “bandido”.

Bandido: aquele sujeito feio, armado, que estupra e esquarteja na calada da noite. Recentemente, no auge do conflito no Rio de Janeiro, o chefe da Polícia Civil de lá disse que  “sabe diferenciar bandido de morador.”  O homem que foi morto pelo BOPE porque estava com uma furadeira na mão que o diga.  Metodologia Lombrosiana arrasando no século XXI. Lombroso for dummies: se o sujeito está andando com uma AK-47  no meio da Praça da Sé, pelado, fumando haxixe, cantando “pau no cu da Polícia”, ele deve ser mau. Mas voltemos à realidade.

É mais fácil imaginar o bozo saindo de uma moita com uma peixeira na mão gritando “vem cá minha nega” do que um cidadão de bem descobrir qual a espécie de delito mais recorrente entre os sentenciados. Dos crimes contra o patrimônio, o número de roubos majorados pelo uso de arma de fogo é muito menor do que os praticados sem o uso de excessiva violência. Para quem não faz Direito, ameaçar verbalmente a vítima ou empurrá-la para subtrair o objeto também são condutas enquadradas como roubo. E essas duas últimas formas são as mais corriqueiras. Aos poucos você percebe que há mais bandido na manchete do jornal do que na cadeia. É um maníaco do parque para cem ladrões de galinha. Vamos supor que você deu um pontapé na vítima, pegou a bolsa dela e saiu correndo.  A defesa chama isso de “furto por arrebatamento”. O Parquet diz que você tem a “personalidade voltada para o crime” e traça toda uma análise psicológica xexelenta sobre o seu caráter sem nunca ter te visto na vida. Tá sem grana pro psicólogo? Chama o MP. Adivinha qual tese ganha? São quatro anos de pena se for primário. A lei sugere regime inicial semi-aberto, mas os semi-deuses não costumam curtir muito a sugestão.

Fazer download gratuito de filme é crime. Pornografia é crime. Vadiagem é contravenção penal. Vou pra Holanda. O Código Penal tem, numa contagem porca, uns 238 crimes. Todavia, a alcunha de “bandido” parece ser reservada somente àqueles crimes praticados por pobres. Roubar bolsas, coisa de bandido. Apropriação indébita, até o nome é chique.

Além disso, vem a questão emocional/antropológica: quando é conosco, ou com alguém para com quem nutrimos afeto, o crime é um ato de fraqueza. Nós queremos saber do contexto, ponderamos a vida que a pessoa levava,  as razões pelas quais ela cometeu o delito. “Por que o fulaninho foi fazer isso?”. Lembramos-nos da falibilidade humana. Podemos até  querer que a pessoa pague pelo que fez, mas então a gente se recorda dos direitos humanos, das garantias processuais, da proporcionalidade da pena… Cadê o “bandido bom é bandido morto”? Bandidos são os outros!

Eu não acho errado proteger parentes. Eu defendo pessoas que  nunca saberei quem são.  Acho errado chamar alguém de bandido e ter a amplitude de visão de uma toupeira. Mas a minha opinião não vincula ninguém além de mim. O ponto é que todo discurso – até os mais cretinos – devem ter coerência: ou ninguém que pratica crime é bandido ou todos são.

3 respostas »

  1. Precisei te escrever, você tem um humor sensacional, e a forma como vc descreve as situações cotidianas é demais!! Quanta ironia hein?? Mas nesse mundo, difícil ser diferente.

    Tive que parar de ler seus posts, pois já está tarde, mas pretendo retomar, tenho que trampar amanhã e enfrentar uma boa conversa com a patroa (namorada).

    A descrição do dia de vista de provas (me identifiquei mais ainda pois fiz direito o mackenzie há pouco tempo) com o pessoal se fudendo, as minas chorando e etc. é demais. Também curti quando você trata da correria no metrô em pleno domingo. Adorei a parte daquela parada de medo dos Nazgûl, estilo senhor dos anéis que sou fissurado (nerdisse a parte).

    Parabéns por ser tão crítica, mas prezando pelo bom senso! Pessoas como você podem fazer diferença nesse mundo de merda.

    Pelo pouco que vi, você deve seguir a velha máxima de que “gentileza gera gentileza”. Fique a vontade para me mandar emails, pois tá difícil encontrar pessoas com tal pensamento.

    Beijos

  2. Lombroso for dummies: se o sujeito está andando com uma AK-47 no meio da Praça da Sé, pelado, fumando haxixe, cantando “pau no cu da Polícia”, ele deve ser mau.. Genial.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s